Capítulo 10
Olheiras
profundas marcavam o rosto másculo. Edward suspirou, saindo do banheiro
feminino e voltando ao quarto de Isabella. A menina ainda dormia profundamente
e nem mesmo o barulho produzido por ele, ou os primeiros raios de Sol
iluminando o quarto a acordaram. Ele não havia dormido desde o momento do
pesadelo, mas não se sentia irritado com isso. Estranhamente estava relaxado,
como se ficar próximo de Isabella tivesse sido como um bálsamo para as feridas
que insistiam em doer.
Ajeitou
melhor o cobertor que aquecia o diminuto corpo, sentindo a textura dos cabelos
de Isabella quando estes roçaram os seus dedos. Deixou o aposento em direção ao
seu próprio pouco depois a fim de se preparar para mais um dia. Tomou um
demorado banho, vestiu-se com esmero e escovou os dentes. Foi em direção à sala
de jantar e só constatou o quão cedo estava quando viu Angela vir pelo corredor,
esbarrando-se nele.
-Perdoe-me
senhor Cullen! Eu estava agora mesmo indo até o aposento da senhorita Swan e...
-Não
se preocupe com isso. Deixe-a dormir. E, após o café, traga um remédio para a
dor e dê a ela. –Avisou, lembrando-se que muito provavelmente a menor acordaria
com o corpo tomado de dores após a noite que tiveram.
Ambos
seguiram silenciosos até o local onde estava sendo servido o café. Edward comeu
bem pouco, dando mais atenção ao jornal do que a qualquer outra coisa. Saiu com
demasiada pressa, querendo manter a cabeça focada apenas nas atividades do dia,
não mais em visões e pesadelos que deveriam estar enterrados.
Bella
acordou pouco tempo depois, estranhando o fato de Angela não tê-la chamado. E,
como o Cullen previra, sentiu o corpo inteiro dolorido. Deparou-se com alguns
dos empregados a sua espera para o café da manhã quando saiu do seu quarto.
Comeu em silencio, sentindo-se oprimida. A conversa com Caius na noite anterior
sobrepujava quaisquer outros acontecimentos, inclusive o dia divertido que
tivera com o Cullen. As revelações do loiro não pareciam mais tão absurdas se
analisadas racionalmente. Havia algo sobre a tal Jessica pairando no ar,
desconfortável, e a Swan precisava descobrir alguma coisa para ter paz de
espírito, desejosa que as descobertas através dos empregados desmentissem as
acusações de Caius.
-Angela...
–Chamou, sendo prontamente atendida pela serviçal.
-O
que deseja? –Perguntou num tom brando enquanto sorria gentilmente para a menor.
-Tenho
uma pergunta a fazer. –Angela parecia atenta a Isabella e ela prosseguiu.
–Sobre Jessica. –E viu a maior ficar apreensiva, algo que não animou a menor.
-O
que deseja perguntar sobre ela? –Desviou os olhos, preferindo se concentrar em
qualquer outra coisa. Mal sabia que cada um de seus atos eram captados pelos
olhos cor de chocolate.
-O
que aconteceu a ela?
O
silêncio permaneceu no amplo espaço por mais tempo do que Bella gostaria.
Angela, nervosa, olhou ao redor na tentativa de encontrar algo que pudesse
ajuda-la a sair daquela conversa, mas nada encontrou. Suspirou e, tentando
omitir as desconfianças acerca do que acontecera a Jessica Stanley, disse:
-A
senhorita Stanley fugiu certa noite. Era viciada em drogas e, segundo a
polícia, por conta de uma divida pendente, foi assassinada por um traficante. É
tudo o que eu sei. Tenho algumas coisas para fazer agora. –Saiu sem pestanejar,
deixando Isabella com mais dúvidas do que respostas.
Estaria
a empregada dizendo a verdade?
Fosse
o que fosse, bebericou a xícara de café fumegante entre as mãos e tentou pensar
em coisas mais amenas.
Apenas
tentou.
...
Irritado,
Edward jogou com descaso os documentos trazidos por Alexandrina em cima da
mesa. Inclinou-se na poltrona de couro preta e encarou o teto do próprio
escritório. E junto à irritação veio uma desconfiança sem tamanho.
Era
comum o Cullen estar presente em todos os eventos promovidos por Aro; ele era o
administrador dos bens de Aro Volturi, afinal. Contudo não era nada comum Aro
fazer questão da presença de Isabella Swan, ainda mais em uma reunião fechada.
-Ah... Traga a pequena Swan com
você nesta reunião. –Disse Aro do outro lado da linha minutos antes,
surpreendendo Edward.
-Isabella? Não há sentido leva-la a
uma reunião como essa. –Rebateu o Cullen, esperando que Aro concordasse com a
sua lógica. Reuniões de negócios contavam com a presença de poucos
colaboradores, os de maior confiança do mafiosi.
-Ora Edward, é claro que há uma
razão! Reuniões puramente de negócios são tediosas! Algo bonito para se ver e
conter os ânimos irritadiços é necessário. Quero ver a pequena Swan esta noite.
–Desligou o telefone sem dar espaço para replicas.
A
conversa com Aro o incomodava. O Cullen estranhava o pedido do Volturi, levando
em consideração que o convite a reuniões era restrito. Tentou ignorar o quanto
pôde no decorrer do dia aquela situação, mas o telefonema martelava a sua
cabeça a todo o momento. Algo estava errado e, fosse o que fosse, o rapaz
descobriria.
Ao
final de mais um expediente, Edward retirou-se para o seu apartamento. Queria
apenas uma boa noite de descanso e irritou-se com o compromisso a ser cumprido.
Decidiu que ficaria por pouco tempo, inventando uma enxaqueca ou o que fosse a
fim de ir mais cedo para casa.
A
sua chegada era esperada por todos os empregados e, até, pela menina agregada.
Isabella estava afastada de todos, escondendo em seu colo o livro que minutos
atrás lia. Não se levantou ou olhou para quem chegava, mas murmurou um
cumprimento ao recém-chegado quase inaudível. Estava sentada na cadeira mais
afastada e fitava o prato de porcelana como se fosse à coisa mais fantástica do
cômodo. A sua postura teria irritado Edward, se ele não estivesse
suficientemente irritado com Aro.
-Isabella,
após o jantar eu quero que você se arrume. –Anunciou sem pestanejar, fazendo a
Swan olha-lo.
-Para
que?
-Você
irá comigo a uma reunião de Aro Volturi. Sem discussão. –Seguiu para o seu
quarto, retirando o paletó com destreza e entrando no chuveiro e rapidamente.
Deixou a água morna banhar a sua cabeça e fechou os olhos tentando relaxar.
Precisaria estar calmo, afinal de contas em reuniões como essa qualquer coisa
poderia acontecer.
Enquanto
isso Bella comia vagarosamente. Não queria sair da casa, ainda mais com Edward,
mas lembrou-se do que Caius havia dito e acreditou que poderia vê-lo. Precisava
ver até onde Caius poderia ajuda-la como ele sugeriu. Por isso, relutante, foi
ao seu aposento após a refeição e arrumou-se com esmero, escolhendo um vestido
Dolce & Gabbana branco, rendado, deveras curto para os seus padrões. Assim
o fazia não por obediência ao Cullen, que sempre a queria impecável, mas apenas
pelo seu querer. Um raro momento aquele em que a Swan encarou um dos muitos
vestidos caros que o rapaz lhe dera e quis vesti-lo.
Angela
apareceu minutos depois, ajudando a Swan a arrumar os seus cabelos num coque
frouxo. Isabella se encarregou da maquiagem, sabedora de algumas técnicas
graças ao seu poder de observação. As duas permaneceram silenciosas, cada uma
lembrando-se do episodio ocorrido pela manhã, quando Bella perguntou sobre
Jessica. Angela sentia-se mal por não esclarecer suficientemente as coisas e
Bella sentia que a menina havia ocultado algo dela.
Ao
final da produção, Bella contemplou-se em frente ao grande espelho do closet.
Estava bonito, como sempre, graças a tudo o que Edward comprara para ela. E
algo se acendeu dentro de sua cabeça: ela estava diferente. Não era mais a
Bella simples que lutava arduamente para conseguir sustentar a ela e ao pai.
Era uma menina cansada demais para lutar, que, agora, adquiria traços de
personalidade que antes abominava: conformismo com a situação e até certa
vaidade.
Alisou
com as mãos o bonito vestido enquanto os olhos perscrutavam cada detalhe dela
toda. Admitiu que as mudanças a incomodavam e desejava voltar a ser a menina de
antes. O que a menina deveria fazer para que isso acontecesse?
-Troque
de roupa. –Ouviu a voz de Edward ordenar. Olhou novamente para o espelho e viu
o Cullen postado atrás dela, olhando com reprovação para a roupa. Estranhou a
determinação do rapaz, uma vez que estava bonita até demais para os padrões
dele.
O
Cullen vestia calça jeans e um casaco preto, parecido com uma peça de moletom,
por cima de uma camisa branca e gravata. Qualquer um teria ficado estranho com
o look que combinava social e esportivo, mas Edward Cullen não. Estava
encantador como sempre e toda aquela beleza não passou despercebida pelos olhos
castanhos da Swan. Desviou os olhos do espelho, passando a encarar uma pilha de
caixas de sapato no canto esquerdo do closet. O coração de Isabella acelerou
minimamente ao vê-lo e ela se condenou por isso.
Assassino...
A
palavra invadiu seus pensamentos enquanto o Cullen estreitava os passos até
ela. Virou-se e o olhou mais próximo do que gostaria, sentindo os batimentos
cardíacos erráticos, agora acelerados pelo temor. Edward Cullen sempre fora
imprevisível a seu ver, mas agora a perspectiva dele era diferente. Isabella
constatou que um homem como aquele poderia fazer muito mais do que impor as
suas vontades.
Ele
poderia ceifar a vida dela com um simples movimento de mãos.
Instintivamente
deu um passo para trás, algo captado pelos olhos esmeraldinos do jovem rapaz.
Edward viu na pequena Swan uma reserva inacreditável, como se um muro estivesse
entre os dois. Estranhou tal comportamento, uma vez que eles haviam
desenvolvido um grau extremamente alto de intimidade na noite passada; um grau
de intimidade que até a própria Swan desconhecia, uma vez que ela dormia
enquanto Edward a observava, tentando espantar os próprios demônios. E tal
comportamento trouxe a tona o temperamento frio e ferino do Cullen.
-Por
que está me olhando desse jeito? Eu disse que quero outra roupa! Apresse-se!
–Ordenou. E via a menina encolher-se com a severidade contida em seu timbre de
voz.
-Por
quê? O que há de errado com o vestido? Não estou bem nele? –Balbuciou a Swan,
encarando o monte de renda que cobria o seu diminuto corpo. O movimento das
mãos brancas alisando o tecido foi captado por Edward, que contemplou a menina
encantadora naquele modelito exclusivo de uma famosa marca de roupas. Seus
olhos perscrutaram cada porção visível ou não da acetinada pele e a Swan sentiu
um fogo toma-la de cima a baixo enquanto Edward a observava.
-Não
há nada de errado com a sua roupa! Você está maravilhosa! Tão maravilhosa que
eu só tenho vontade de arrancar essa roupa que a cobre e possuí-la! –E a
veemência com que foram ditas essas palavras fez a Swan encolher-se. –Mas nesse
encontro em que você me acompanhará, eu quero que você passe despercebida dos
olhos alheios. Quero que vá o mais sem graça que puder e, levando em
consideração como você tem vivido a sua vida nos últimos anos antes de me
conhecer, assumir esse papel deve ser fácil.
-Lamento
desaponta-lo, mas você não comprou nenhuma roupa para mim que me permita ser
“sem graça”. –Falou a Swan com azedume, cruzando os braços em frente ao corpo.
Edward encarou aquela atitude como um sinal de desafio e sorriu.
-Veremos.
Tenho certeza que posso encontrar uma peça de roupa mais decente do que esta
que cobre o seu corpo. –Dirigiu-se a uma das portas do closet, abrindo-a.
Isabella o encarou com desdém enquanto o via remexer em suas roupas, bagunçando
a arrumação meticulosa feita por Angela e ela.
O
celular
Sentiu
um mal estar possuí-la, quase fazendo perder a consciência. Ela havia escondido
o celular dado por Caius no closet e Edward estava muito perto de acha-lo. Se
ele olhasse a ultima prateleira, onde havia algumas caixas de sapatos...
-Espera!
–Gritou, chamando a atenção do Cullen. Edward parou o que estava fazendo e
encarou a Swan confuso. –Você está bagunçando todas as roupas! E eu sei onde
está um vestido mais simples e comportado! Deixe-me ver isso! –Pegou o braço do
rapaz, puxando-o para longe do closet. Edward acatou a determinação da menina,
deixando-se ser conduzido para fora do closet. Quando Isabella conseguiu ficar
a sós no espaço, fechou as portas, alegando que se trocaria.
Tão
logo saiu da vista do rapaz, Isabella pegou o celular, descarregado, e o
contemplou por alguns instantes. Precisava livrar-se do aparelho, pois temia o
que poderia acontecer a ela caso alguém o encontrasse. Talvez o suposto
encontro com Caius fosse o momento ideal para entregar o celular ao seu
verdadeiro dono.
Pegou
um vestido simples, menos decotado e curto que o vestido que trajava. O preto
lhe caia bem, mas odiou aquela cor. Lembrava-se do dia em que foi ao enterro da
mãe, por isso propositalmente vestia roupas de outras cores desde o fatídico
dia, muito embora Edward a tenha induzido a usar roupas pretas algumas vezes. E
todo o brilho que parecia irradiar dela minutos antes se esvaiu, voltando a ser
a menina triste de sempre. Calçou sapatos vermelhos, colocando o celular dentro
de uma bolsa vermelha de mão, enrolado meticulosamente em um lenço. Respirou
fundo, preparando-se para ficar tão próxima quanto sempre do homem que estava
aprendendo novamente a temer.
Edward
estava sentado na cama, batucando os pés do carpete. Levantou a cabeça que
antes fitava o chão para ver a recém-chegada. Isabella estava bonita, tão
bonita quanto antes, o que não o alegrou. Como se pode ofuscar uma beleza como
aquela, ele pensou. Nem mesmo o jeans surrado, a camiseta e os tênis gastos
puderam ocultar Isabella no dia da compra. E ele temia, como temia, que os
olhos de Aro estivessem sobre a menina.
-Foi
o melhor que eu consegui. –Disse Isabella, esperando por uma aprovação do
Cullen. Com os lábios crispados ele suspirou.
-Esse
terá que servir. É melhor nós irmos. Vamos. –Caminhou em frente à Swan, sem se
importar em verificar se ela o seguia. Isabella andava trôpega pelo salto alto,
segurando fortemente a bolsa de mão contra o peito. Achou melhor manter o
celular ali do que dentro do seu vestido. Edward poderia surpreendê-la em algum
momento querendo tirar proveito dela e se ele sentisse o celular...
Manteve
uma distancia segura do Cullen enquanto os dois se dirigiam ao estacionamento.
A imprevisibilidade dele mesclada as desconfianças de Isabella fez com que a
menina ficasse na defensiva, cruzando os braços em frente ao corpo e evitando o
toque do rapaz. Edward segurou o quanto pôde os impropérios que estavam na
ponta da língua, não querendo piorar a situação entre os dois.
Em
um dado momento, vendo Bella encolhida o mais longe possível dele, espremida
desconfortável contra a porta do carro, o Cullen resolveu intervir. Não chegou
a encostar o carro no acostamento da tumultuada avenida, mas diminuiu a
velocidade, recebendo dos motoristas que estavam atrás de seu carro xingamentos
e gritos.
-Não
me lembro de ter feito algo contra você. –Continuou olhando o transito, mas pela
visão periférica viu Bella contrair-se com as suas palavras.
-Não
fez. –Os olhos castanhos perscrutavam a noite caótica pela janela do veiculo.
Pela postura da menina, Edward sabia que ela não entraria em detalhes do que
parecia aborrecê-la. Resolveu conversar sobre um assunto mais importante ao
invés de dar ibope aos transtornos da Swan.
-Aro
pediu pela sua presença nesta reunião, algo atípico dele. Não sei o que ele
pretende com isso, mas não deve ser algo bom. –O rosto antes meramente
aborrecido crispou-se em irritação mal contida. Bella encarou o rapaz ao seu
lado, tentando absorver as suas palavras.
-Então
por que está me levando até ele? O pedido de Aro não parece agradá-lo. –Havia
algo ali e Bella percebeu. Edward parecia querer protegê-la, mante-la em um
casulo para afasta-la de toda a maldade que Aro Volturi representava. No
entanto, a menina procurou sufocar tais pensamentos, e a diminuta alegria sentida
por eles. Ela não deveria esperar nada daquele rapaz sisudo sentado ao seu lado
e alegrar-se com o pouco oferecido por ele. Edward era o seu algoz ontem, hoje
e sempre.
-Não
me agrada o pedido, mas devo acata-lo de todo modo. –Respondeu tarde demais,
retirando Bella de suas abstrações. –Por isso não caberá a mim protegê-la e sim
a você. Tenha cuidado. Aro é ardiloso.
-O
que espera que eu faça? Se Aro me quiser na palma de sua mão, basta usar o meu
pai! –A voz feminina subiu algumas oitavas enquanto a Swan lembrava-se da
patética condição ao qual estava submetida. O pai estava confinado em uma clinica
de recuperação para dependentes químicos e era mais fácil Aro chegar até o
policial do que a própria filha.
-Até
quando vai se sacrificar por aquele verme? Enquanto você se martiriza, ele está
na elegante clinica planejando o que beberá assim que sair. –Ironizou o Cullen,
ácido. Isabella respirou fundo, casada demais daquelas discussões infundadas
entre eles.
-Não
discutirei com alguém que não entende. Logo você, desprovido de sentimentos.
–Falou com descaso a menina sem se importar em olhar para o Cullen. Não
imaginava o efeito de suas palavras no rapaz. Edward já fora alguém sentimental
demais, mas pagou um preço caro por isso.
-Entendo
melhor do que imagina, mas ao contrário de você valeu a pena o meu sacrifício.
–Edward não quis pensar muito se de fato valera a pena. Ele pagava até hoje
pelas escolhas feitas. Bella, após a declaração do maior, o olhou curiosa.
Quis, naquele instante, entender quem era o homem ao seu lado. Às vezes, quando
ele disparava uma ou outra coisa do seu passado, ela achava que eles tinham
alguma coisa em comum. Havia algo de obscuro naquele rapaz que Izabella
compartilhava.
-O
que aconteceu a você? –A pergunta, feita com brandura, causou espanto no rapaz.
Toda a indiferença e demasiada antipatia da Swan dera lugar a uma criatura
bondosa que raramente aparecia. Não que Edward merecesse tal aparição, ele
sabia disso, mas a bondade parecia algo inerente à pessoa da menina e nada nem
ninguém poderia apagar esta importante qualidade.
Olhando
aqueles profundos olhos castanhos que direcionavam piedade para ele, Edward
quis se abrir com alguém. Nunca o fizera ao longo dos anos e couberam as
pessoas ao seu entorno desvendar algumas coisas sobre o seu passado. A única
pessoa com quem poderia conversar, sua tia e mãe de criação Esme, já não estava
nesse mundo. Nem mesmo Jessica, sua companheira por um bom tempo, tivera
interesse em saber da sua história. Ainda que houvesse essa necessidade de
compartilhar com alguém a sua vida, permaneceu calado, dando atenção a estrada.
...
Não
era a residência oficial de Aro Volturi, apenas uma das muitas propriedades que
o mafioso tinha no país das oportunidades. Um chalé elegante, no interior de um
imenso terreno arborizado, com traços de uma arquitetura garbosa, muito
provavelmente barroca. O clima intimista, longe de ser aconchegante, causou
arrepios na Swan.
Edward
estacionou o seu carro importado ao lado de tantos outros na lateral da casa.
Empregados bem uniformizados aguardavam na opulenta entrada pelos convidados
que eram acomodados na sala para convidados.
Bella
manteve demasiada distancia do Cullen durante o trajeto e após os primeiros
minutos da chegada a choupana de Aro, mas procurou o conforto e segurança
daquele corpo ao entrar no local. Postou-se ao lado de Edward, tão perto que o
calor do corpo emanado pelo outro era sentido. Edward, percebendo a apreensão
da menina, segurou gentilmente a pequena mão na sua. Os dois trocaram um olhar
cheio de significado com Edward prometendo silenciosamente protegê-la e Bella
desconcertada com aquela promessa. A mão masculina apertou gentilmente a
pequena mão que segurava e Bella correspondeu ao aperto imitando o gesto.
-Ora
se não é o meu braço direito acompanhado de sua linda... –Aro pausou, sem saber
como classificar a menina, mas logo encontrou um perfeito eufemismo. -...
Namorada. –Apressou-se em chegar perto dos recém-chegados, apertando suavemente
a mão de Edward num cumprimento. Após o ato, olhando Isabella dos pés a cabeça,
parecendo aprovar a aparência da menina apesar da tentativa do Cullen de
enfeiá-la.
-Está
bella. Fui muito fortuito ao sugerir
a Edward que a trouxesse. –Capturou a mão livre de Isabella, beijando-a. A
menina segurou o nojo de ser tocada por aquele homem assustador e Edward
incomodou-se com o ato mais do que gostaria. Isabella, desconfortável, apertou a
mão de Edward, como se o seu ato pudesse amainar a agonia sentida.
-Bella
não está muito bem. Por isso não ficaremos por muito tempo. –Blefou o mais
velho e Isabella procurou não demonstrar através de alguma expressão que as
palavras dele era mentira.
-Ah,
entendo. A reunião não será demorada, eu lhes asseguro. Começaremos assim que
Marcus chegar. Enquanto isso, apreciem os petiscos preparados pelo chef e os
coquetéis. –Como o bom anfitrião que era Aro deu passagem aos jovens,
mobilizando alguns garçons que circulavam no recinto para servi-los de algo.
Edward optou por um Martini seco e Bella, com o estomago embrulhado pela tensão
sentida, preferiu não beber nada.
Os
olhos castanhos vasculharam o recinto, deparando-se com poucos presentes, todos
homens, muito bem vestidos. Os olhos destes convidados lembravam os de uma
harpia, astutos e ávidos por uma presa incauta. O ambiente era ricamente
decorado com antiguidades certamente caras e a meia luz amarelada dava um clima
sensual a tudo. Todos os olhos do recinto voltaram-se para os recém-chegados,
alguns com desinteresse, outros com raiva mal contida e alguns, a grande
maioria, olhavam para a Swan com luxuria.
-Sintam-se
em sua casa, meus amigos. Eu o convocarei quando a reunião começar. –Olhou
significativamente para Edward, afastando-se do casal.
-Vamos.
–Edward conduziu a Swan pela mão, levando-os a uma poltrona, afastada de todos,
onde pudessem sentar. Na outra mão o drink ofertado, que ele sorveu em dois
goles quando já estava acomodado. Bella cruzou os braços em frente ao corpo e
encarou o chão, não querendo fixar seus olhos em ninguém.
Edward
mantinha-se impassível, numa postura que emanava indiferença e certa
arrogância. Bella estava claramente nervosa, incomodada com o ambiente e as
pessoas ao seu redor, perguntando-se por que diabos Aro solicitou a sua
presença. Ainda sim ela precisou ir, uma vez que havia a possibilidade de ver
Caius.
-Esse
martírio logo acabará como eu disse a Aro. –Disse o Cullen ao seu lado e a Swan
se surpreendeu pelas palavras consoladoras. –Assim como você, eu não me sinto
confortável estando aqui. –Franziu os lábios enquanto mirava os convidados.
-Mas
eles são sua gente! Você deveria estar... Acostumado a eles.
-Não
há como se acostumar e, ao contrário do que pensa, somos diametralmente
opostos. –Edward viu o membro esperado chegar, sendo prontamente recepcionado
por Aro. Levantou-se, sabendo que a reunião começaria em outro cômodo.
-Acredito
que todos os convidados irão, sendo assim você ficará sozinha. Tenha cuidado.
–Falou sem olha-la, mas não demorou a virar, encarando a menina ainda sentada.
Lembrou-se tardiamente que, sem a supervisão de alguém, Bella poderia
simplesmente fugir pela porta da frente. Segurou o queixo feminino, aproximando-se
o suficiente para sentir a respiração quente e levemente descompassada da
menina.
-Não
tente fazer nada, está me ouvindo? Seria tolice tentar algo como fugir deste
recinto. E um ato como esse me deixaria muito aborrecido, algo que você não
desejará testemunhar. –Os olhos esmeraldinos emanavam um brilho ameaçador que
petrificou a Swan de imediato. Mesmo temerosa por aquele comportamento hostil,
com um safanão livrou-se da mão de Edward, olhando-o com raiva.
Caminhou
graciosamente até a antessala, separada por uma grande porta de correr. Um
empregado fechou o local, isolando os cavalheiros, assim que o Cullen entrou.
Alguns empregados transitavam para lá e para lá, levando petiscos e drinks aos
convidados. Isabella suspirou, aliviada por não haver ninguém a olhando com
lascívia. Acomodou-se melhor no sofá, fechando os olhos na tentativa de
repousar um pouco.
Enquanto
isso, no interior da sala de reuniões, todos se acomodavam nas cadeiras e
poltronas disponíveis, com os olhos focados na figura imponente de Aro. O
Volturi deixou em cima da grande mesa a sua frente o seu copo de uísque e, com
uma voz melodiosa, porém cheia de autoridade, silenciou os presentes.
-Meus
amigos, vamos começar mais um encontro. –Disse o sorridente Aro aos demais.
...
O
corpo feminino, apesar de estar em um lugar desconhecido com pessoas perigosas,
foi relaxando contra a vontade da Swan. Ela queria dormir e só acordar no outro
dia. Algo subitamente a incomodou e ela não soube explicar o que, abriu os
olhos e estacou, controlando a vontade de gritar pelo susto sentido. Um rapaz
loiro, vestido num blazer preto, estava de pé em frente a ela, com a cabeça
ligeiramente inclinada em sua direção. Ao reconhecer o rapaz que parecia querer
ajuda-la, apiedado pela sua situação, a Swan se acalmou.
-Assustei
você? –Perguntou o loiro, visivelmente preocupado. Sentou-se ao lado da Swan
enquanto os olhos sondavam a menina ao seu lado.
-Me
surpreendeu, mas eu estou bem. –olhou nervosamente para a porta onde, do outro
lado, a reunião ocorria. Se Edward a visse conversando com um estranho...
-Não
imaginei que estaria aqui. Reuniões como esta são fechadas.
-Eu
também fiquei surpresa quando Aro Volturi solicitou a minha presença. Mas e
você? As pessoas convocadas para essa reunião, pelo o que eu sei, são aquelas
diretamente ligadas a Aro. –Bella o olhou, interrogativa. Caius sorriu maroto.
-Digamos
que sou um convidado não oficial.
-Não
me diga que está aqui sem o conhecimento de Aro Volturi?! –Espantou-se a
menina. Caius não parecia preocupado.
-Sim.
Havia uma pequena possibilidade de você estar aqui, muito embora este não seja
o ambiente para pessoas como você. Eu pensei em vir dar uma verificada e disse
na entrada que era um convidado. Ninguém duvidou. Fico feliz por encontra-la.
–Subitamente capturou as pequenas mãos da Swan, segurando-as entre as suas.
Isabella encarou os olhos num estranho tom castanho e viu um brilho intenso
naqueles orbes, algo que a assustou. Desvencilhou-se das mãos do rapaz, com a
desculpa de mexer na bolsa que carregava. Pegou o aparelho celular e o entregou
a Caius.
-Obrigada
pelo celular. Ele me foi muito útil. Infelizmente não poderei ficar mais com
ele.
-Por
que não? Se ele foi útil você deveria...
-Se
alguém pegar esse celular comigo eu terei problemas. Não posso me arriscar. –A
Swan não quis entrar em mais detalhes sobre quem ela temia e o que poderia
sofrer, preferiria nem pensar no assunto. Caius pareceu relutante em aceitar o
aparelho, mas o pegou de todo modo, guardando-o no bolso da calça social.
-Talvez
seja melhor me devolver o celular. Ele poderá de fato causar muitos problemas a
você, algo que não desejo. E, embora o nosso encontro tenha possibilitado esta
devolução, não foi por esse motivo que eu me arrisquei a vir aqui. –Os olhos do
rapaz, penetrantes, prenderam a atenção da menina. –Lembra-se da nossa conversa
pelo celular? –Ele perguntou.
-Sim.
–Murmurou a menina, curiosa pelo o que Caius tinha a falar.
-Eu
tenho me mantido passivo diante de coisas horrendas que vejo, temendo ser
afetado. No entanto, desde que eu conheci você, as coisas mudaram. Eu sinto uma
necessidade louca de ajuda-la e não descansarei até fazê-lo! –Havia um brilho
quase insano nos olhos do rapaz que petrificou Isabella. Ela jamais duvidaria
da promessa do loiro.
-Não
há nada que possa fazer por mim. –Murmurou a Swan sem conseguir desviar o
olhar. Caius mantinha-se com um estranho otimismo, claramente desafiando o
pessimismo da menina.
-Há
sim uma maneira minha cara... Você pode fugir comigo e pode ter certeza que
nunca mais Edward Anthony Masen Cullen tocará em você! –E diante daquela
promessa, Bella emudeceu. O que Caius prometia a ela era, de fato, a solução
para os seus problemas.
-Eu
posso salva-la do inferno que está vivendo, basta que você aceita a mão
estendida a você. –E num gesto figurativo, Caius estendeu a sua mão.
...
A
reunião havia sido tranquila e os problemas quanto ao desvio de dinheiro no
Brasil não foram comentados. O tempo de duração do encontro foi menor do que em
outras épocas, graças ao blefe de Edward quando a saúde da Swan. Suspirou
aliviado enquanto afrouxava a gravata, retirando-a em seguida. Por enquanto as
finanças de Aro estavam intactas, rendendo satisfatoriamente.
Olhou
para o lado quanto teve de movimentar o carro após a abertura do sinal de
trânsito. Bella estava encostada na porta do quarto, parecendo mais avoada do
que o normal. Estranhou. Esperava encontrar uma menina entediada e,
consequentemente, aborrecida na sala de visitas do Volturi. A Swan, todavia,
parecia alheia a tudo, contemplando a noite estrelada pela janela do veiculo em
movimento.
-Deveríamos
parar em algum restaurante, uma vez que não comi nada. –Comentou, mas foi
totalmente ignorado. –Hei, estou falando com você! –Aumentou a voz, finalmente
recebendo alguma atenção de Isabella. A menina olhou plácida para ele.
-O
que disse?
-O
que há com você? É a quarta vez que eu me indisponho por estar no mundo da Lua!
–Esbravejou o maior, atordoando a menina.
-Acalme-se,
ok? Eu estou apenas cansada. –Mentiu, não querendo deixar nenhuma palavra ou
gesto transparecer o que de fato a deixava distraída. E Edward, notando que
nada iria retira-la daquele estado, decidiu dirigir diretamente para a sua
casa. Enquanto isso a mente da menor trabalhava furiosa, lembrando-se das
ultimas palavras de Caius naquela noite.
-Eu não sei se isso é o melhor para
mim Caius! Há muito a ser deixado para trás! Eu... –Nervosa, Bella gesticulava
freneticamente. A Swan sabia que aceitar a proposta do loiro, por mais benéfica
que fosse para ela, poderia ser o fim do seu pai.
Com gentileza, Caius afagou as mãos
da Swan entre as suas na tentativa vá de acalmá-la. A euforia antes vista nos
olhos castanhos foi amainando e a Swan sentiu certo alivio com isso.
-Não preciso de uma resposta agora,
mas peço que não demore. Soube de um vento daqui a cinco dias, o aniversario de
Aro Volturi. Será uma grande oportunidade de fugirmos e com a movimentação seu
desaparecimento não será recebido de imediato. Terá cinco dias para decidir e,
seja o que for, acatarei a sua decisão. Eu preciso ir. –Levantou-se
subitamente, parecendo alerta.
-Eu preciso ir. Terei muitos
problemas se Aro Volturi me ver aqui. Até logo. –Fez uma saudação antes de
desaparecer por uma porta lateral, deixando uma Bella atordoada na sala de
visitas.
Quinze minutos depois a reunião
acaba e Edward segue apressado com ela para a saída.
Uma
importante decisão deveria ser tomada pela Swan em cinco dias e, pela primeira
vez, a menina ficou tentada a deixar o pai de lado e seguir com a sua vida.
Queria poder ir e vir como antes, conhecer pessoas e lugares novos, tentando
assim enterrar o seu terrível passado pelas areias da distância e do
esquecimento. Caius estava oferecendo essa chance e Bella...
-Chegamos.
–Anunciou o Cullen, descendo em seguida do carro e abrindo a porta para Isabella.
Subitamente cansada a menina caminhou lentamente até o elevador, segurando nas
mãos os sapatos. Edward permaneceu calado, incomodado pela distância entre ele
e a Swan. Dessa vez não tentou impor o seu querer e compelir a menina a uma
intimidade forçada, preferindo deixar as coisas do jeito que estavam.
Quando
chegaram diante do primeiro aposento, que era o de Isabella, a menina olhou
para o homem ao seu lado, como quem pedindo permissão para seguir diretamente
ao quarto. Edward lançou um olhar enviesado antes de desaparecer na porta
seguinte, que era a do seu quarto.
Pela
primeira vez a menina sabia que merecia aquela atitude hostil do rapaz pelo
descaso com que o estava tratando.
...
Virou-se
repetidas vezes na cama gigantesca, mas o sono não vinha. Não que Edward não
estivesse cansado, é claro que estava, mas o seu inconsciente parecia alerta-lo
das visões e pesadelos que teria caso dormisse. Irritou-se por não poder
refugiar-se no inconsciente e esquecer os problemas terrenos, ou mesmo ter
sonhos bons, remetendo a doce infância perdida.
Levantou-se,
sentando na beirada da cama. Precisava de algo para dar vazão ao stress e
ajuda-lo a dormir, mas nada ocorreu em sua mente que pudesse oferecer tal
conforto.
Isabella…
O
nome veio como um cálido sussurro em seus ouvidos e, sem perceber, Edward
levantou-se, se dirigindo ao aposento ao lado. Como um lince espreitando a
refeição, caminhou lentamente, tomando o cuidado de não produzir muito barulho
quando saiu de seu aposento e abriu a porta do aposento seguinte. Isabella
podia ser essa garota difícil, arredia, que estava sempre com alguma resposta
ríspida na ponta da língua... Mas era tudo o que Edward tinha no momento. Bella
era a única a oferecer calor, quando tudo o mais estivesse o mais rigoroso
inferno. O seu ódio queimava e sem duvida alguma o Cullen preferiria isso a a
frieza dos sorrisos femininos e caricias vazias daquelas que nada sentiam,
apenas fingiam com interesses por detrás das ações.
O
silêncio sepulcral do aposento denunciou o que Edward percebeu apenas ao
acender as luzes: Isabella não estava no quarto. Atordoado, caminhou até o
banheiro não encontrando a menina lá também. Acabou por sair do quarto, notando
tardiamente que as luzes da sua biblioteca estavam ligadas. Foi lá que a
encontrou, tentando alcançar uma das prateleiras mais altas.
-O
que está fazendo aqui há essa hora? –Disse, pegando a menina de surpresa.
Desequilibrou-se da escada onde estava dependurada e teria ido ao chão se
Edward não a tivesse amparado. Segurou Isabella pela cintura, tirando-a de cima
da pequena escada e a equilibrando ao seu lado.
-O
que estava fazendo? Querendo se matar? –A voz ríspida de Edward, longe de aborrecê-la,
deixou Isabella curiosa. Havia um tom preocupado que o Cullen tentava mascarar.
-A
culpa e sua por me assustar desse jeito!
-Não
a teria assustado se estivesse no seu quarto. –Replicou com azedume o rapaz,
fazendo a Swan bufar.
-Eu
estava sem sono. Vim até aqui pegar um livro. –Voltou a olhar a prateleira a
sua frente, sem subir na escada para alcançar os livros mais acima.
-E
o livro que dei a você?
-Eu
terminei. Sei que é uma trilogia, por isso estou procurando os outros dois
livros. –Não entendia bem a organização daquele espaço. Imaginou estar
organizado em ordem alfabética, mas não era assim. Enquanto Bella tentava
identificar em qual padrão os livros foram organizados para assim encontrar
rapidamente o que procurava, Edward já localizava os livros procurados,
deixando-os nas mãos da menor.
-Eles
não estão organizados por ordem alfabética como a maioria faz. Eu os organizei
por data de aquisição.
Segurando
os livros com o maior cuidado possível, a sorridente menina sentou em um dos
mitos sofás do local, aconchegando-se o melhor que pôde. Preferiria ler naquele
lugar, cercada de outros livros, como se assim tivesse mais animo para ler.
Edward a observou de soslaio, vendo um brilho maravilhoso ser emitido pelos
orbes castanhos ante um bom livro nas mãos. Lembrou-se dele mesmo assim,
apaixonado pela leitura, quando a vida não era cheia de complicações como
agora. Bella, de certa forma, era a sua versão feminina. Edward se perguntou se
a tendência era ela acabar tão amarga como ele próprio era.
Poderia
deixa-la em paz e retornar ao seu quarto onde pesadelos iriam atormenta-lo até
a exaustão, mas não queria se submeter a tal tortura psicológica, por isso,
para a surpresa de Isabella, Edward sentou-se ao seu lado, deitando-se no sofá
e repousando a cabeça no colo da menina.
A
Swan quis perguntar o que diabos Edward estava fazendo, mas apenas o encarou. O
Cullen, em contrapartida, antevendo a pergunta, disse:
-Estou
sem sono também. Ficarei um pouco aqui até estar suficientemente cansado.
–Fechou os olhos, sem se dar ao trabalho de dar mais explicações. E a Swan,
apesar do desconforto de tê-lo ali tão perto, procurou ignorar tal sentimento e
continuar a sua leitura.
Impossível.
A
presença de Edward era poderosa e o calor e o cheiro de colônia que aquele
homem frio irradiava era intoxicante. E o rosto... Ah, o rosto! Isabella contemplou
o bonito rosto repousado em seu colo e, enquanto os dedos hesitavam a
centímetros da acetinada pele alva, Bella não conseguiu ver em Edward o
assassino que Caius descrevera. Com um rosto plácido demais para os seus
padrões, ele mais parecia um menino. Um menino que admitiu estar com problemas
na hora de dormir, mas que adormecera rapidamente assim que usou o calor do
corpo de Isabella para aquecê-lo e o seu colo para repousar a cabeça.
Ele
era realmente uma incógnita.
As
coisas entre os dois, Bella refletiu, estavam bem melhores que antes. Quase
pareciam ter um relacionamento normal, com mais baixos do que altos. Ele
continuava sendo o mesmo homem sisudo de atitudes hostis, mas algo nele, quase
que imperceptivelmente, havia mudado. Bella não saberia dizer o que havia mudado
no Cullen, mas fosse lá o que fosse o fazia ter a presença tolerável. E,
verdade seja dita, nos últimos dias o coração de Bella palpitava com a simples
menção do nome dele, e não era por temor a figura do contador. Havia algo nele,
e Bella nem queria pensar a respeito, que a estava atraindo de um modo poderoso
e fatal.
Os
pensamentos duraram uma fração de segundos, mas a duração pareceu insuportável
para a menor. Tratou de sair dali, tomando cuidado para o Cullen não acordar
enquanto ela se mexia. Saiu da biblioteca, entrando no seu quarto e fechando a
porta atrás de si.
Lembrou-se
instantes depois que Edward estava deitado de qualquer jeito, sem um cobertor e
com as luzes da biblioteca ligadas. Suspirou e tratou de pegar um travesseiro
da sua cama e um cobertor dentro do seu closet. Voltou para o local onde Edward
repousava e, tão silenciosamente quanto pôde, aproximou-se do rapaz. Com o
máximo de cuidado levantou a cabeça de Edward, colocando-a em cima do
travesseiro que trouxera. Abriu o cobertor e cobriu bem o Cullen para que ele
não sentisse frio. Ao fita-lo, notou que Edward estava acordado, com os olhos
parcialmente abertos. Ele a fitava sem dizer uma palavra e a Swan quis saber o
que se passava na cabeça do maior.
Não
sabendo o que fazer diante de um olhar perscrutador como aquele Bella fez
menção de sair, mas a voz sem potencia se fez ouvir por ela.
-Não
vai me dar o beijo de boa noite? –Perguntou o sonolento rapaz, deixando a Swan
embasbacada.
Claro
que não era a primeira vez a ela testemunhar acessos como esse da parte do
Cullen, mas ainda se surpreendia quando o rapaz tinha alguma atitude carinhosa,
meiga ou o que fosse. Uma parte dela gostava dessa atitude do Cullen, mas a
outra, temerosa por um possível sentimento surgindo, repudiava atitudes como
essa. Ainda sim atendeu ao pedido, abaixando-se de tal forma que os rosto
estavam praticamente colados, podendo sentir o hálito perfumado e quente do
maior. Beijou rapidamente a testa, preparando-se de imediato para sair, mas
Edward, apesar da lentidão, conseguiu capturar a sua mão que repousava próxima
a ele.
-Você
não é a minha mãe para me dar um beijo de boa noite na testa. –Aproximou a
pequena mão do seu rosto, roçando a ponta dos dedos em seus lábios. Edward
fechou os olhos por alguns instantes para logo mais abri-los, ele analisava,
divertido, a face da morena ficar rubra.
Bella
resistia à investida, preferindo ficar parada e Edward, naquele momento, queria
provocá-la mais e mais. Com a mão livre acariciou a lateral do pescoço da Swan,
enroscando os dedos no cabelo acetinado. Puxou a menina para si, tocando os
lábios dela com os seus. Não chegou a aprofundar o óculo trocado, preferindo
apenas sentir a textura daqueles lábios tão desejáveis que a Swan possuía.
Afastou-se minimamente dela, mantendo o rosto em formato de coração entre as
suas mãos. Edward acariciou com gentileza a pele de Isabella, sentindo as
bochechas dela ficarem quentes sob a sua mão. E num estado de sonolência
pesada, confessou o que preferiria guardar para si, não querendo revelar a
amabilidade que ele guardava a sete chaves dentro de si.
-Você
estava tão linda hoje! Tentei apagar a sua beleza para não chamar a atenção,
mas falhei miseravelmente. E ver Aro olhando para você não me agradou em nada.
Eu não quero que você chame a atenção de ninguém além da minha. –Os olhos
esmeraldinos, ainda embargados pelo sono, miraram os olhos cor de chocolate. Edward
confessava abertamente o que sentia, algo raro dele, e Bella não sabia muito
como reagir a isso. Por isso ela apenas o encarou sem emitir um único som
enquanto Edward continuava a fita-la e a acariciar o seu rosto com as mãos.
-Preciso
de você esta noite. –Sussurrou o rapaz, puxando novamente a menina para os seus
braços e beijando-a fervorosamente. A Swan nada pôde fazer além de corresponder
àquele óculo, espalmando as mãos no peito rijo onde se podia sentir os
batimentos cardíacos erráticos.
Enquanto
Bella era embalada pelo hálito doce e caricias provocantes de Edward com a
língua no interior de sua boca, ela pensava em Caius. Talvez não fosse o
momento mais oportuno para lembrar-se das palavras do loiro, mas era algo que a
Swan não conseguia evitar. Ele havia prometido liberdade a ela e se Isabella
aceitasse teria que abandonar o mundinho ao qual Edward a havia inserido. Ela
teria que abandonar Edward...
Edward,
o homem que a estuprou uma vez.
Edward,
que estava sempre a subjugando e ameaçando.
Edward,
um homem frio e cruel que pouco ligava para o que ela queria ou sentia.
Edward...
O homem que, gradativamente, fazia o seu coração palpitar.
Edward,
a única coisa que restava a ela, uma vez que o seu pai a abandonara.
Afastou-se
do rapaz e, ainda de joelhos no chão, encostou a cabeça no peito de Edward.
Bella fechou os olhos sem saber o que faria. Aceitar a oferta de Caius significaria
rumar para o desconhecido, deixando tudo o que conhecia. Ela teria coragem para
mais uma atitude ousada?
Sentiu
o passeio dos dedos de Edward em seu cabelo, mas não ousou olhá-lo. Temia que
ele conseguisse desvendar os segredos dela apenas olhando em seus olhos, que
muito revelavam. Ele exerceu mais força em suas mãos, erguendo a cabeça da
menina com delicadeza. Os olhos esmeralda a sondavam, mas nada encontraram nos
orbes castanhos que pudesse revelar o que se passava no coração da Swan.
-Gostaria
de poder ler a sua mente, assim eu saberia o que a atormenta. –Comentou o rapaz
com brandura. Isabella deu um sorriso debochado.
-Estou
surpresa por você perguntar, uma vez que a resposta é tão obvia. –Ela o olhou
intensamente e um arrepio perpassou o corpo do rapaz. Foi com uma
voz falha que ela disse:
-Voce. Você
é o meu maior tormento. –E diante dessa declaração Edward sorriu o que fez a
menina ficar confusa. –Por que está sorrindo? –Perguntou.
-Prefiro
ser o tormento de alguém... –Depositou uma mão na nuca de Isabella, puxando-a
gradativamente em direção aos seus lábios. -... do que não ser nada. Uma
existência vazia que morrerá sem ser notada. Muito parecida com a condição ao
qual está Isa... Bella.
Aquele
beijo trocado Edward deixou claro o quanto ele apesar do cansaço a queria. Mais
do que o desejo que um homem sente por uma mulher atraente, inexplicavelmente
ele precisava do calor proporcionado pela Swan. E Bella deixou-se levar não
querendo pensar o porquê disso. Ela não queria acreditar que uma parte dela
desejava Edward e por esse motivo aceitava o abuso cometido repetidamente por
ele.
Cessado
o beijo para que ambos pudessem respirar, o Cullen afastou-se apenas para
sentar-se o mais confortável que pôde no sofá e puxar a Swan para o seu colo.
Enlaçou a fina cintura com os braços, prendendo a menina a ele, e olhou
divertido Isabella ruborizar ao notar que ele a observava. Aproximou o seu
rosto da curvatura do pescoço da Swan, inalando profundamente o perfume que ela
exalava.
-Estou
decidindo... –Murmurou contra a pele branca, causando arrepios na menina. Com
essa Bella teve que se manifestar.
-Decidindo
o que?
-Se
tomo você aqui mesmo ou se a levo para uma cama. A cama é mais confortável, mas
gostaria de inovar. Vê-la em diferentes posições nesse sofá é tentador!
–Mordiscou o lóbulo da orelha da menor, arrancando um tímido gemido. –A essa
altura eu sei que você só precisa do devido incentivo para se tornar uma leoa
na cama. –As mãos másculas tatearam com suavidade o corpo acima do seu,
acariciando de forma lenta na tentativa de provocar a libido da Swan. Bella
ficou imóvel, tentando inutilmente não emitir nenhum som, mas, para a diversão
de Edward, foi impossível ficar calada diante daquelas caricias.
Voltou
a beija-la com avidez enquanto as mãos a despiam da camisola de algodão azul
marinho. Ao sentir uma corrente de ar perpassar o seu corpo, causando arrepios,
Bella tentou cobrir a sua nudez com as mãos, mas Edward a impediu, segurando as
mãos atrás das costas enquanto propositalmente roçava o seu corpo ao dela.
Desejoso pelo atrito de pele contra pele Edward retirou a própria camisa preta,
exibindo um peito de músculos rijos e bem delineados. Colocou as mãos de
Isabella lá enquanto fechava os olhos, apreciando sentir contra a sua pele a
pele quente da menina. Abraçou o diminuto corpo contra o seu enquanto beijos
eram depositados nos delicados seios. E as mãos, os lábios e tudo o mais não
pareciam serem suficientes para o rapaz e foi com muita satisfação que ele se
afastou- após longos minutos explorando com as mãos e a boca o diminuto corpo,
e sentou Isabella no sofá.
Curiosa,
a menor observou o que Edward fazia. Ele manteve os olhos esmeraldinos em
Isabela enquanto abaixava-se e alcançava a feminilidade com a boca, arrancando
gemidos audíveis. Isabella agarrou os cabelos acobreados do rapaz na tentativa
de afastá-lo, mas sua força parecia se dissipar a medida que ondas de prazer a
atingiam com o poder de um furacão. Enquanto isso Edward explorava avidamente o
interior da menor com a língua, sem pudores, enquanto sentia a umidade e o
calor do interior daquele corpo com os seus dedos. Esperou o momento oportuno,
quando os sinais de Isabella indicavam um orgasmo chegando, mas parou antes de
dar esse prazer pleno a ela. Edward secretamente ansiava que os dois chegassem
juntos ao ápice do prazer e, após certificar-se que ela estava suficientemente
lubrificada, retirou rapidamente a calça moletom para penetra-la. Estacou ao
lembrar que não estava prevenido e, relutante, afastou-se a arfante Swan que
mantinha os olhos fechados.
-Merda!
–Irritado, Edward sentou no sofá, praguejando por ter de parar em momentos
cruciais como esse. Atordoada, Isabella sentou-se no sofá, pegando a camisola
deixada no chão e cobrindo parcialmente seu corpo. Interpretando o ato do rapaz
como uma dispensa, a menina vestiu a camisola.
Edward
acompanhou o ato de Isabella com curiosidade, imaginando se ela realmente o
deixaria ali sem satisfazê-lo.
-Aonde
vai? –Perguntou o Cullen enquanto a menina se levantava.
-Para
o meu quarto. Já está tarde e eu estou cansada. Você deveria fazer o mesmo.
–Respondeu a menina sem se dignar a olha-lo.
-Fala
em ir para o seu quarto? –Perguntou numa voz brincalhona e sedutora,
levantando-se nu e postando-se em frente à menina. –Uma ideia tentadora, mas
não há proteção lá para mim. –Enlaçou a Swan em seus braços, colando o diminuto
corpo ao seu. Isabella ruborizou ante um contato tão intimo e tentou, sem
sucesso, afastar-se do rapaz.
-Achou
mesmo que eu iria dispensa-la assim? –O Cullen alcançou a porta, abrindo-a. Não
pareceu se importar com o fato de estar andando nu pelo corredor. Bella tentou
se desvencilhar, mas foi guiada contra a vontade para o quarto do maior. Fechou
os olhos quando foi jogada na cama, não querendo ver o corpo nu que Edward
apresentava sem pudor. Após fechar a porta do aposento, foi até uma cômoda e
pegou um preservativo, colocando-o no membro ereto. Seus olhos percorreram a
cama, vendo uma Isabella arfante deitada, rígida, como uma vitima de um
sacrifício à espera do primeiro golpe do carrasco. Aborrecido, procurou ignorar
esse detalhe enquanto as mãos trabalhavam para novamente despi-la da camisola.
Sentir
a pele branca e aveludada na palma de sua mão era o frenesi. Após despir
Isabella, Edward acariciou com a ponta dos dedos toda e qualquer parte do corpo
da menina que pôde alcançar, mas não demorou aos lábios provarem o gosto
adocicado daquela tão convidativa pele. Por algum tempo a apatia da Swan não
incomodou ao rapaz, uma vez que o homem não precisa de grandes estímulos para
se satisfazer, mas não demorou a ele sentir um forte incomodo. O corpo abaixo
do seu estava rígido demais e os olhos fortemente cerrados era uma declaração
de que ela continuava a repudiar Edward, preferindo imaginar outra pessoa em
seu lugar. Procurou conter a raiva, atacando o pescoço feminino com beijos
enquanto sussurrava:
-As
coisas melhorarão muito para nós se você abrir os olhos. –Migrou seus beijos
para o rosto, contornando o lábio inferior de Isabella com a língua enquanto
com uma mão ele afastava as pernas da menina, acariciando sua feminilidade.
Sequer ouviu algum gemido, pois a menor esforçava-se para não emitir nenhum som.
Afastou-se,
encarando Isabella. Se não estivesse tão próximo a menina, sentindo no peito as
batias aritmadas do coração dela, poderia até pensar que ela estava morta
graças à imobilidade ao qual o corpo estava submetido.
-Olha
para mim. –Ordenou, irado, mas Bella não fez menção de abrir os olhos,
parecendo confortável demais para obedecê-lo. Se ela visse o desgosto emitido
pelos orbes esmeraldinos, certamente acataria aquele pedido.
Com
uma mão Edward envolveu o pescoço da Swan, apertando-o.
-OLHA
PARA MIM, PORRA! –Seu grito fez Isabella arregalar os olhos, colocando a sua mão
sobre a mão do rapaz e tentando, sem muito sucesso, retirá-la de lá. Ao notar o
medo com que era observado e o rosto da Swan ficar vermelho pelo aperto em seu
pescoço, Edward retirou lentamente a mão, sentindo um profundo arrependimento.
Nem mesmo o rapaz entendia o porquê dessa
explosão que às vezes o acometia. Talvez fosse por ele estar em constante
pressão no trabalho e não poder impor as suas vontades, se manifestar. Quando
ele podia fazê-lo, descontava a sua raiva pela patética condição ao qual era
submetido, lesando quem estivesse em seu caminho. E mesmo a Swan sendo tão
impetuosa e arredia, ela não merecia ser tratada dessa maneira, ele sabia.
-Eu
não... –Murmurou, afastando-se. A vergonha o impediu de olhar para ela,
preferindo encarar qualquer outro ponto do aposento. Sentou-se na cama, de
costas para Isabella. –É melhor você ir. Não estou com um bom humor, apesar de
a reunião ter sido mais tranquila do que o esperado. Eu não quero descontar em
você alguma coisa e acabar me arrependendo. Se vista e volte para o seu quarto.
Assustada
com a súbita explosão do rapaz, Bella apressou-se em pegar a peça de roupa e
vesti-la. Queria sair dali, pois temia ser novamente machucada sem motivo
aparente. Era em situações como essa que a declaração de Caius parecia ser
verídica a respeito do suposto assassinado cometido pelo Cullen. Antes de sair,
todavia, ouviu o chamado do Cullen.
-Isabella.
–Ela virou-se minimamente para olhá-lo. –Daqui a cinco dias... –E ela soube
instantaneamente do que se tratava.
-O
aniversario de Aro Volturi. –Pensou em voz alta, recebendo um olhar duvidoso do
rapaz.
-Como
sabe?
CONTINUA...
PS: Presente em homenagens a todas as mães que leem o que eu escrevo. Peço perdão pela demora, mas o capítulo logo estará finalizado.